terça-feira, 25 de maio de 2010

4 p.m.

Estava sentada no banco da praça, o calor era tanto que o suor molhava os seus cabelos negros e lhe escorria pela lateral do seu rosto fino e delicado. Parecia ansiosa, cruzava e descruzava as pernas lânguidas e tamborilava os dedos na mesa de xadrez. Nunca havia a visto ali, sua beleza embebedava meus pensamentos, seus olhos de esmeralda pareciam guardar muitas coisas, mas o ar de tristeza tomava conta deles... Como todas as tardes fiquei jogando cartas com Emanuel, mas não conseguia me concentrar, para o desespero de meu amigo. Não conseguia parar de apreciá-la. Seu Emanuel perdeu a paciência lá pela quarta vez em que eu perdia minha vez de jogar. Ele passou a olhá-la também. No alto dos seus 82 anos, me disse: "Meu filho, quando eu tinha a tua idade e me apaixonava assim por uma moça, costumava cortejá-la com flores... Mas os tempos eram outros, meu rapaz!" E realmente eram. Apesar de aparentar menos, eu tinha 22 anos e, na época do meu amigo, as pessoas já estavam tendo seus primeiros filhos com essa idade. Mas a história das flores, ah! Isso sim se parecia comigo. Era um romântico incorrigível, um amante de sangue latino! Mas era muito tímido também... O Sol que penetrava as árvores, refletia sua pele que era de um branco exagerado e exageradamente perfeito. O vento batia de leve em sua saia de floral, que dançava sobre suas coxas e revelava um pouco mais de suas pernas. A regata branca marcava sua cintura e se confundia com o tom da sua pele. Seus longos braços suportavam três pulseiras cor de ouro e nas suas mãos não haviam anéis, um bom sinal. Fiquei ensaiando levantar e falar com ela, mas não o faria, não era bom o bastante para ela. Apesar de sempre me falarem que eu era de uma beleza notável, eu nunca me vi dessa maneira. Sempre fui alto e desengonçado, meu cabelo vermelho-fogo era liso e enrolado ao mesmo tempo e sempre estavam bagunçados por preguiça da minha parte. Meus olhos eram mais indecisos que as ideias na minha cabeça, hora eram verdes, hora eram castanhos. Mas eu não gostava deles, não conseguiam esconder meus sentimentos, logo, as pessoas me desvendavam facilmente. Acho que de tanto a encarar, ela percebeu, pois passou a me observar também e, no momento em que nossos olhares se cruzavam, ambos desviaram o rosto ruborizado, com vergonha... Mas no minuto seguinte, nos encaramos de novo e não desviamos o olhar. Eu olhava ansioso para ela e não sabia o que ela queria dizer, mas seu sorriso me revelou: EU IRIA ATÉ ELA... Olhei parar o seu Manuel e falei: " Nosso jogo fica para amanhã, amigão!" Ele sorriu seu sorriso sem dentes e disse: " Vá conquistá-la!" E eu me levantei. Minhas pernas fraquejaram e hesitaram, mas eu avancei. O sorriso dela continuava me convidando... O caminho parecia mais longo e eu podia imaginar o nosso encontro e quando eu a tomasse em meus braços e beijasse os seus lábios, o mundo pararia de girar... Pelo menos foi assim que eu imaginei! Tomei fôlego para dar os 5 ultimos passos que me separavam dela, sorri com os lábios, com os olhos, com o coração e com a alma. Ela também... Continuei e, como eu imaginei, a puxei para os meus braços e a abracei, enquanto a rodava em minha volta e beijava sua boca-mel, nossos olhares se cruzaram mais uma vez e foi ai que eu acordei. Seu Manuel me sacudia e perguntava: " Ainda está ai, meu filho?" Percebi que continuava na mesa, com as cartas na mão, e o que agoniava minha suposta futura amada, havia chegado: seu presente namorado... Então acabou minha história, meus sonhos... E a moça desconhecida saiu da praça, de mãos dadas com alguém que estava em meu lugar, aonde EU deveria estar... Então continuei jogando cartas, como sempre fazia todas as tardes...

Por: Aoyama, Yasmin Hikari

1 Comentários:

Blogger  disse...

arrasou =']

23 de junho de 2010 às 20:25  

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